"Somewhere over the rainbow..."

"Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer. " - Bernardo Soares -

domingo, junho 19, 2011

Sunday Light

Aparece um raio de sol tão luminoso que entra pelos olhos fechados e os obriga a cerrarem-se ainda mais. As mãos sobre os olhos por causa da impressão da luz. A cabeça enterrada na almofada. Não... a luz não. Tudo menos a luz. Ainda por cima a luz de domingo. Parece que faz de propósito. A luz de domingo é mais forte que as outras. Mesmo sem luz, o ar de domingo é diferente do ar dos outros dias. Demasiados rituais cumpridos com fervor. Famílias saem à rua, enchem as ruas das cidades, entopem as esplanadas. Existe uma aparente felicidade em cada rosto. Como se tudo estivesse certo, como se tudo estivesse no lugar, como se não houvesse mais nada para além do domingo. O domingo é uma bela de uma farsa. O domingo é o pior dia da semana. A segunda-feira só é má, porque vão para a segunda-feira com o peso da farsa de domingo.
E esta luz? E esta luz que fere os olhos? Que quer esta luz? Não, não consegues arrancar-me para a farsa domingueira. É ao domingo que sou eu sem reservas. É ao domingo que deixo dançar os meus fantasmas à minha volta. Que os deixo baralhar-me os pensamentos. Não vou ser igual a vós... a nenhum de vós. Nem mesmo ao domingo.

segunda-feira, junho 13, 2011

Cheia de vazio


Chega-se a um ponto em que palavras como 'farta' e 'saturada' não são suficientes, porque não expressam a dimensão do significado. De que é que me queixo? De tudo. De nada. Queixo-me dos caminhos que escolhi, dos que fui obrigada a seguir, dos que passei e nem sequer reparei que existiam. Tenho desperdiçado tudo. Essencialmente a vida. Tenho vivido mais intensamente coisas alheias a mim do que tenho vivido aquilo que me pertence. Aliás, é-me difícil perceber o que me pertence. É-me difícil definir e delinear a minha vida. Sei lá se a tenho. Sei da vida dos outros. Sei. Não porque pergunte. Não porque queira saber. Porque parece que é minha obrigação saber da vida dos outros. Mas eu não quero saber!! Eu quero saber de mim. Se é que existe mim...
Estou saturada... estou presa a coisas que nem sequer são minhas. E no fundo não tenho nada que possa chamar de meu. Como é possível que me sinta tão só? Como é possível que eu seja tão ignorada, tão esquecida, se estou sempre lá e nunca estou cá? Eu nunca estou para mim. E eu preciso tanto de mim!! Preciso tanto da minha atenção e não a tenho. Porque é que eu não consigo mudar isto? Porquê? Sinto-me tão só. Tão sem mim. Procuro-me nas pessoas a quem me dei, a quem me continuo a dar e nem aí me encontro. Até aí fui desperdiçada. Estou farta. Estou saturada. E dizer isto é como dizer nada! Porque estas palavras não chegam, não dão para exprimir o que realmente é.

domingo, junho 12, 2011

Look down

Olha-me de cima, que eu quero levantar os olhos e olhar-te de frente.
Serás sempre tu a baixar o olhar.
E é assim que ele deve estar. Pregado ao chão.
Sujeito a dar de caras com os meus olhos levantados.

domingo, junho 05, 2011

Típico!

É tudo tão sempre o mesmo. As mesmas caras, os mesmos gestos, os mesmos trajectos. Até a música parece ser sempre a mesma. Tudo tão típico. As atitudes sempre iguais. Primeiro dar, depois pedir de volta, depois dar outra vez e depois tirar de vez talvez na esperança que pense em roubar ou exigir. Não sei. Apesar de ser típico, continua a ser imperceptível. Não se percebe. Por mais que se pense. E, típico, perde-se tempo a pensar e a tentar compreender.
As coisas aparecem do nada sem as pedirmos e quando já não as queremos. Típico! Pensa-se uma coisa, decide-se com convicção e faz-se o contrário. Também é típico. Nem sei o que sinta. Se, por um lado, me sinto em constante mudança e me sinto sempre deslocada, como se não pertencesse, como se a minha presença fosse atípica... por outro sou tão típica como tudo o que é típico. É o que dá ainda acreditar em utopias.