"Somewhere over the rainbow..."

"Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer. " - Bernardo Soares -

quinta-feira, outubro 14, 2010

4º Mandamento

Lembro-me da última vez que fomos a Fátima os quatro. Não me lembro do ano, não me lembro do dia. Lembro-me que era Agosto. E estava calor. Destacou-se uma faixa em letras bem grandes onde estava escrito "Honra teu pai e tua mãe"... A mãe não sei se a honrei. Tentei e tento todos os dias. O pai... honro e honro e honro... ou pelo menos acho que sim. Eu tento.
Odeio mentiras. Odeio mentir. E ultimamente não faço outra coisa. Mentiras, omissões, desculpas, justificações... é como se a minha vida não me pertencesse. É como se devesse tudo ao meu pai. Será que isso é honrá-lo? Será que ao poupá-lo da verdade estou a honrá-lo? Não terei eu direito a ter os meus bocadinhos bons e felizes, independentemente com quem seja? Não seria melhor contar tudo de uma vez? Preto no branco. Sem esconder nada... Estarei a desonrar o meu pai por gostar de uma pessoa. Por gostar de estar com ela. Por querer passar dias com essa pessoa. Seja essa pessoa quem for. É a pessoa que eu quero comigo neste momento. Não sei por quanto tempo. Ninguém é obrigado a ficar com ninguém o resto da vida, pois não?
Este dilema mata-me por dentro. Não estou bem com um nem com outro. Sinto-me uma criminosa. Não sei o futuro. Não posso saber. Mas também não consigo andar assim. A viver como se a vida não fosse minha. Ninguém me pede justificações, mas eu penso que as tenho de dar. Será isto honrar o pai? Sou uma criminosa por gostar de alguém? Não tenho esse direito? Então porque é que tenho de esconder? Juro que estou a dar em doida... :(

1 Comments:

  • At 19/3/11 20:40, Anonymous Anónimo said…

    A Blimunda não contava tudo nem ao Baltasar. Aliás, a Blimunda até era uma rapariga de poucas falas. Quando contas algo que sabes que a outra pessoa não vai entender, até podes achar-te sublime por teres contado mas o que será que fará à pessoa a quem contas e não entende? Por vezes, a maior parte das vezes, ignorância é felicidade.
    Sabes, Blimunda, os pais têm os filhos e primeiro falam pouco com eles, porque os filhos são demasiado novos e querem protegê-los. Mais tarde são os filhos que falam pouco com os pais porque estes são demasiado velhos e querem protegê-los ou porque são cotas quadrados e porra-do-velho-quero-lá-saber-falo-com-ele-quando-precisar-de-massa-vou-lá-passo-a-mão-pelas-costas-e-saco-umas-c'roas.
    Ali, no teu desabafo, não leio isso, leio amor e mágoa.
    A vida não nos é dada com livro de instruções anexo, escrevemo-la passo a passo :)
    (ignorante e feliz)

     

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