Andir

Ela sabe. Ela sabe tudo. Mas prefere não saber que sabe. Vê tudo. Mas fechou os olhos da alma e os olhos do coração. Para não ver.
Está a deixar andar. E não é isso que a assusta. Enquanto for deixando andar, não é mau. Porque deixar andar é ficar. Esperar. Não agir. Não procurar nem esperar ser encontrada. Deixar andar. Para ver onde acaba, ou onde vai parar. Não sabe como vai acabar, ou onde vai parar, mas quase que adivinha. Mas mesmo assim deixa andar.
O que a assusta, o que a perturba é o não saber se se vai deixar ir. Porque se se deixar ir, já não vai ficar só à espera. Vai, simplesmente. E se ela for... se ela for, pode ser difícil voltar. Não que não haja caminho de volta. Por mais longe que se esteja, por mais fundo que se vá, há sempre um caminho de volta... mas tem medo de perder as forças para fazer esse caminho.
Ela sabe que está a deixar andar. Ela sabe que não pode deixar-se ir. E a fronteira entre o andar e o ir é tão ténue, tão invisível, que tem medo. Tem medo de um dia acordar e ver que se deixou ir... e foi. E tudo talvez porque tenha deixado andar demasiado tempo.

