"Somewhere over the rainbow..."

"Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer. " - Bernardo Soares -

quarta-feira, abril 14, 2010

Waiting


Estava sempre à espera de algo novo. Chegando ao fim do dia, esperava sempre por uma novidade. Não pedia nada de extraordinário. Esperava sempre que alguém se lembrasse de si antes de a deixar dormir. Talvez por isso sempre tivera insónias terríveis. Porque esperava e nada acontecia. Esperava, esperava, esperava... nada de novo. A não ser a frustração e a tristeza, que eram avivadas pela falta da tão esperada novidade. Todas as noites a mesma coisa, todas as manhãs pensava "há-de ser hoje. Hoje há-de ser.", todos os dias esperava. A noite chegava, como todas as noites. Nada acontecia, nada mudava, a esperança não morria. Não morria por uma única razão... porque, teimosa, pôs na cabeça que há-de ser a última a morrer. E por causa de um capricho da esperança, passa noites sem dormir à espera do que já não espera porque sabe que não existe.

sábado, abril 10, 2010

Springless


"Na Primavera disse Deus: "Ponham a mesa às abelhas." Ouvi esta frase à minha mãe durante anos e anos... Há pouco recebi um telefonema da minha irmã "Quando fui embora não se via uma única flor nas árvores, agora estão todas em flor." Afinal, são as flores que alimentam as abelhas. Deus pôs, de facto, a mesa às abelhas...

É costume dizer-se que na Primavera o amor anda no ar. Que as pessoas ficam mais sensíveis a esse sentimento. Porquê? Não sei. Será talvez do sol, das flores, da brisa fresca. Talvez o amor esteja para nós, seres humanos, como as flores estão para as abelhas... Mas as abelhas são privilegiadas. As flores são visíveis, palpáveis... O nosso alimento não se vê. Supostamente sente-se. Talvez se sinta um leve odor no ar... Não sei. Dizem que na Primavera o amor anda no ar... aqui ainda não chegou nada. Aqui não se sente nada. Talvez a constipação que a Primavera me trouxe me tenha toldado os sentidos. Talvez não...Talvez eu seja uma abelha sem flor. Há abelhas sem flor, não há?