"Somewhere over the rainbow..."

"Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer. " - Bernardo Soares -

domingo, março 29, 2009

A Chave


A chave continua na porta. Continuo a abrir e a fechar a porta com a mesma chave todos os dias. A chave que é a minha passagem para o mundo real. Para um mundo que eu nem sei se existe. Não sei o que é real na minha vida. Nem sei se eu própria sou real, se existo mesmo. Sei que vou andando por aqui. Sei que vou estando por aqui. Mas este aqui é-me completamente desconhecido e completamente desprovido de sentido. Parece que nada do que vivo é real, que nada do que penso é coerente, que nada do que digo é ouvido, que nada do que faço é visível.

Parece que só quando estou resguardada no meu canto me sinto mais próxima daquilo que eu julgo que é ser alguém. No meu canto, no meu espaço, sou aquilo que sou e aquilo que penso, saio mesmo fora da realidade e entro num mundo só meu. Sinto-me bem aqui, sinto-me segura e protegida, longe dos olhares e das palavras maliciosas, longe das tentações que teimam em desviar-me do caminho que supostamente tracei para mim....

Mas nada disto é suficientemente suficiente... Todos os dias tenho que entrar na suposta realidade. Todos os dias pego na mesma chave e abro a porta que me dá acesso a mais um dia de puro martírio e sacrifício. A realidade muda, mas a chave continua na porta. E eu, vou andando e estando e ficando e vivendo (seja lá o que isso for) por aqui.

terça-feira, março 24, 2009

Aquela Luz


Gostava de encontrar um rumo e um caminho para a minha vida... mas para onde quer que olhe só vejo escuridão. Está cada vez mais difícil de encontrar aquela luz. A minha ávida e incessante procura parece não dar frutos. Quando penso que a encontro ela torna-se baça e logo se transforma em trevas.

Já me convenci que a única luz que me pode satisfazer e me pode realmente iluminar é aquela que tem hora marcada, mas cujo horário desconheço. É aquela onde eu vou chegar e tu vais estar à minha espera para me receber. E para me dar um abraço, aquele abraço, que tão poucas vezes aproveitei mas que me faz uma falta imensa.

Enquanto essa hora não chega, vou tacteando a escuridão e caíndo de buraco em buraco... Interessa é sair deles, não é? Talvez tenhas razão, talvez tenhamos vindo ao mundo apenas para sofrer. Sim, cada vez mais me convenço que tinhas razão. Agora, muito do que me dizias faz todo o sentido...

Só queria ouvir a tua voz mais uma vez. Queria que me dissesses que te orgulhas de mim e que amas. Não que eu não o sinta, mas precisava de o ouvir. Queria que me desses força para continuar, que me dissesses que sou capaz... Queria que me ajudasses a encontrar aquela luz, mandando-me um pouco da tua luz, que deve ser a mais bonita e a mais brilhante de todas!


"Lê isto: mãe, amo-te."

segunda-feira, março 09, 2009

Fuga Necessária


"Como fazer para que não percebam

que conheço a psicose deles?

Como suportá-los, sem que eu me torne um deles?

Como não me confundir com a doidice deles?

Como não revelar as nossas diferenças indiscretamente?

Como adaptar-me à pontualidade absoluta?

À subserviência da arte de dizer sempre sim?

À hipocrisia ridente em nome de interesses espúrios?"



- Márcio Catunda -