A Chave

A chave continua na porta. Continuo a abrir e a fechar a porta com a mesma chave todos os dias. A chave que é a minha passagem para o mundo real. Para um mundo que eu nem sei se existe. Não sei o que é real na minha vida. Nem sei se eu própria sou real, se existo mesmo. Sei que vou andando por aqui. Sei que vou estando por aqui. Mas este aqui é-me completamente desconhecido e completamente desprovido de sentido. Parece que nada do que vivo é real, que nada do que penso é coerente, que nada do que digo é ouvido, que nada do que faço é visível.
Parece que só quando estou resguardada no meu canto me sinto mais próxima daquilo que eu julgo que é ser alguém. No meu canto, no meu espaço, sou aquilo que sou e aquilo que penso, saio mesmo fora da realidade e entro num mundo só meu. Sinto-me bem aqui, sinto-me segura e protegida, longe dos olhares e das palavras maliciosas, longe das tentações que teimam em desviar-me do caminho que supostamente tracei para mim....
Mas nada disto é suficientemente suficiente... Todos os dias tenho que entrar na suposta realidade. Todos os dias pego na mesma chave e abro a porta que me dá acesso a mais um dia de puro martírio e sacrifício. A realidade muda, mas a chave continua na porta. E eu, vou andando e estando e ficando e vivendo (seja lá o que isso for) por aqui.



