"Somewhere over the rainbow..."

"Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer. " - Bernardo Soares -

domingo, dezembro 21, 2008

Perda...


Quando se perde algo que nunca se pensou perder, parece que o chão se abre sob os nossos pés e caímos, caímos, caímos... flutuamos numa realidade desconhecida e imprevisível. Tudo deixa de fazer sentido, tudo parece um sonho... e nunca acordamos. Aquilo que se pensava ser importante e que nos fazia sofrer, passa a ser a coisa mais imbecil do mundo e a mais simples de resolver... A pouco e pouco os pés assentam no chão... a pouco e pouco o apoio que estava ali, já não está mais. Há coisas para dizer e não há ninguém para ouvir...

Sentimos que temos muitos amigos... mas só passado algum tempo conseguimos identificar os verdadeiros... Quando se perde algo que pensávamos que não possuíamos, é que percebemos a falta que nos faz... Apetece voltar para trás, fazer tudo diferente... tarefa impossível!! Perde-se algo que esteve sempre ao nosso alcance e nunca quisémos agarrar. Perde-se o mais importante de tudo e é suposto a vida continuar igual.

Porque é que não me tiraram a solidão? Porque é que não me tiraram a tristeza? Porque é que não perdi o azar? Porque é que não perdi a sensação de não ser ninguém?

Porque é que perdemos o que precisamos e passamos a vida a achar o que não perdemos?

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Palavras para a minha Mãe

"mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

pelas palavras que nunca disse,pelos gestos que me pediste tanto
e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

lê isto: mãe, amo-te.

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes. "

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"