(des)ilusão

Sentiu como se o seu coração fosse trespassado por mil lanças bem afiadas. Não estava no meio de nenhuma guerra, não era soldado, mas fora trespassado, sim. Trespassado por um olhar frio e vazio. Um olhar que nunca vira, que não conhecia, ao qual não se conseguiria habituar... Ainda se lembrava bem do olhar doce, terno, sensível. O olhar que já não existia, que desaparecera, que fora substituído por aquele olhar tão cortante, capaz de roubar a felicidade de uma alma e o sorriso de uns lábios.
De um momento para o outro, tudo mudara. Assim, sem uma explicação, sem uma razão, sem que nada pudesse fazer prever. Sentiu o chão a fugir-lhe debaixo dos pés, sentiu-se perdido, sentiu que tudo deixara de fazer sentido. A desilusão é o pior de todos os sentimentos. A desilusão pode provocar danos irreversíveis na alma e no coração.
A desilusão existe, porque há a ilusão. Quando um coração se deixa iludir, quando acredita que tudo será diferente, o coração fica maior, mais contente, capaz de enfrentar os maiores medos. A desilusão vem sem avisar... Faz de propósito. Arruína os sonhos, os planos, os dias, as noites, pode arruinar a vida. O coração quase que morre, fica pequenino, quase sem bater... até que de novo se ilude, até que de novo acredita em olhares que, pensa, nunca vão mudar.
Sente-se num ciclo vicioso, sente que nunca vai poder nem conseguir sair dali, sabe que não há saída. Sabe bem que aquele coração trespassado está já cheio de buracos... Sabe que vai continuar a ser ferido por olhares que nunca irá compreender. Resta-lhe esperar as próximas ilusões, para disfarçar os buracos, para se tentar manter forte, pelo menos até ao próximo ataque...


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