"Somewhere over the rainbow..."

"Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer. " - Bernardo Soares -

domingo, novembro 23, 2008

(des)ilusão


Sentiu como se o seu coração fosse trespassado por mil lanças bem afiadas. Não estava no meio de nenhuma guerra, não era soldado, mas fora trespassado, sim. Trespassado por um olhar frio e vazio. Um olhar que nunca vira, que não conhecia, ao qual não se conseguiria habituar... Ainda se lembrava bem do olhar doce, terno, sensível. O olhar que já não existia, que desaparecera, que fora substituído por aquele olhar tão cortante, capaz de roubar a felicidade de uma alma e o sorriso de uns lábios.

De um momento para o outro, tudo mudara. Assim, sem uma explicação, sem uma razão, sem que nada pudesse fazer prever. Sentiu o chão a fugir-lhe debaixo dos pés, sentiu-se perdido, sentiu que tudo deixara de fazer sentido. A desilusão é o pior de todos os sentimentos. A desilusão pode provocar danos irreversíveis na alma e no coração.

A desilusão existe, porque há a ilusão. Quando um coração se deixa iludir, quando acredita que tudo será diferente, o coração fica maior, mais contente, capaz de enfrentar os maiores medos. A desilusão vem sem avisar... Faz de propósito. Arruína os sonhos, os planos, os dias, as noites, pode arruinar a vida. O coração quase que morre, fica pequenino, quase sem bater... até que de novo se ilude, até que de novo acredita em olhares que, pensa, nunca vão mudar.

Sente-se num ciclo vicioso, sente que nunca vai poder nem conseguir sair dali, sabe que não há saída. Sabe bem que aquele coração trespassado está já cheio de buracos... Sabe que vai continuar a ser ferido por olhares que nunca irá compreender. Resta-lhe esperar as próximas ilusões, para disfarçar os buracos, para se tentar manter forte, pelo menos até ao próximo ataque...

segunda-feira, novembro 17, 2008

(i)mutável


Aquela rua já não era a mesma rua, aquelas casas, aquelas janelas, tudo mudado, já nada era o mesmo. Aquela figura que avançava ao longe não era a mesma. Tudo estava no sítio, porém tudo estava diferente. A estanheza com que sentia todas aquelas mudanças, a certeza de que tudo estava diferente, mesmo quando tudo continuava igual. Ruas não se transformam, espaços vazios não mudam de lugar... Que se passara?

Tinha chegado a altura de dizer adeus. Um adeus definitivo, de quem não volta, mas também não parte. Tinha chegado a altura em que era necessário desatar sem cortar. Tudo tem o seu tempo. Era chegada a altura de perceber que a figura avançava para longe e não para perto. Perceber que tinha sido sua a culpa daquele afastamento... Perceber que há coisas irremediáveis e que nem tudo solução. Ter consciência que o coração aguenta tudo, que tudo passa, que a rua há-de voltar ao sítio...

Não está triste... Sabia que assim havia de ser... O sorriso ficará sempre, a cada lembrança de cada instante. Chega-se a um ponto em que já nada nos deita abaixo, em que nada nos empurra para o fundo... Chega-se a um ponto em que não existe mais fundo. Chega-se a este ponto, em que se existe só por existir... Nada há que importe. A não ser a felicidade dos que nos rodeiam.

Há que virar as costas, sem nunca virar o coração...

quarta-feira, novembro 05, 2008

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A felicidade não está ao alcance de todos. A felicidade é pouca para tantos. E eu pergunto: não dá para parar com isto de uma vez por todas? Não dá para parar de ser ridícula? Eu? Ser feliz? Talvez... se me derem outra alma. Mas acho que nem isso mereço!
Vá, deixa-te andar... mata-te aos poucos, porque nem morrer de uma só vez tu mereces!! Não sairás daqui tão cedo, não penses! Tens muito o que sofrer! Tens muito para pagar, ainda! Como é possível que estejas farta se só agora começou? Sofre, sofre, sofre!! Espera, espera, espera!! Afinal de contas, sabes fazer mais alguma coisa neste mundo??
Não tenham pena de mim... Acreditem, fiz por merecer! Enfim... um dia tudo há-de terminar. E nesse dia, se olharem para mim, olhem para o tamanho do meu sorriso! Não lamentem... Estarei finalmente feliz!!!